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PAULOS ABRAHAM

fev. 4, 2021 0 comments
PAULOS ABRAHAM

PAULOS ABRAHAM PODE ATÉ NEM SER O NOVO ALEXANDER ISAK, MAS NUM CONTEXTO TÃO COMPLICADO COMO O AIK EM 2020, O JOVEM EXTREMO DE 18 ANOS CONSEGUIU DEIXAR A SUA MARCA. CAPAZ DE INTERPRETAR DIFERENTES FUNÇÕES DENTRO DA ORGANIZAÇÃO OFENSIVA, QUALIDADE TÉCNICA APURADA E UM TRABALHO SEM BOLA INESGOTÁVEL, ABRAHAM ESTÁ A MEIO CAMINHO DE VINCAR UMA POSIÇÃO NO FUTEBOL MUNDIAL.

Paulos Abraham tem mais futebol de rua numa unha do pé do que muitos dos freestylers que pululam as plataformas de vídeo. Ainda hoje me rio sempre que vejo, e revejo, porque não é possível ver apenas uma vez e ficar-lhe indiferente, o golo que apontou à Arménia naquela que foi a sua estreia absoluta a marcar com a camisola do seu país. Em apenas 23 minutos, Paulos Abraham apresentou-se ao mundo em contexto internacional e pouco mais de duas dezenas de minutos foram suficientes para bisar no encontro. O primeiro, no mínimo, insolente.

Não consta que Paulos Abraham seja mau rapaz, mas o seu futebol é sujo. No bom sentido, claro. Sujo da poeira da rua, dos ringues. Lá está, insolente. Sem medo de partir para cima do adversário, de ir para o drible, expressando-se individualmente. Nunca recusando deixar uma marca distintiva em cada ação, mesmo que, para muitos, por vezes, isso roce o exibicionismo. Abraham não tem um futebol totalmente simples, mas a ele oferece tempero. É mais bonito, o futebol, assim.

O azar de uns é a sorte de outros. Depois de falhar a contratação de Daleho Irandust, o FC Groningen manteve-se atento ao futebol sueco e foi a Solna resgatar Paulos Abraham. O extremo do AIK até pode não estar ainda no mesmo patamar do seu colega de seleção, mas o tecto, esse, é ainda mais alto. Apesar das semelhanças, Abraham não teve a temporada de estreia e explosão que teve Alexander Isak, para bem do Groningen, mas os tempos são outros. Tivesse tido o contexto certo que teve Isak, e talvez hoje estivéssemos a falar de um jogador para outro patamar no imediato. É que, mesmo assim, foram quatro golos em temporada de estreia, revelação e afirmação.

Aos 18 anos, Paulos Abraham é um dos mais entusiasmantes e promissores atacantes suecos da atualidade, mesmo não se tendo percebido ainda em que posição ele é mais forte. Esse é, igualmente, ainda assim, um dos seus maiores tratados: fazer qualquer uma das posições do ataque e fazê-lo com igual perigo. Dividiu as presenças pelo AIK de forma praticamente salomónica entre os dois extremos do ataque e as duas funções de avançado, coroando-as muitas vezes com golo ou assistência.

Em temporada de estreia no futebol profissional pode não ter alcançado o impacto conseguido anos antes por Alexander Isak, com aquela mesma camisola, mas foram, ainda assim, três golos e quatro assistências em apenas 27 jogos. Se em 2016 o AIK lutava pelo título, em 2021 chegou a ameaçar a luta pela despromoção e se tal acabou por não acontecer em muito se deveu a Paulos Abraham – foi responsável direto em nove pontos conseguidos pelo AIK, talhada que, inexistente, teria deixado o AIK apenas dois pontos acima da linha de água.

Na classe média do futebol holandês terá o espaço ideal para se descobrir definitivamente, juntando-se agora a uma equipa que já contava com nomes como Per Kristian Bråtveit, Ramon Lundqvist, Jörgen Strand Larsen e Gabriel Gudmundsson, estes dois últimos, tal como Abraham, dos maiores jovens talentos do futebol nórdico atual. Uma equipa com tradição comprovada no lançamento e potencialização de jovens jogadores ao longo de décadas e equipa onde terá alguém com quem aprender como não teria em qualquer outra equipa no Mundo: Arjen Robben.

É que, pelo que mostrou esta temporada, será muito provavelmente a partir do corredor que Paulos Abraham conseguirá ser mais diferenciado. Pela capacidade de progressão com bola, pela forma desinibida com que a conduz, sem medo de partir para cima do adversário, com uma agilidade, explosão, velocidade e capacidade de drible desconcertante. Nada que surpreenda, depois de ter passado mais de uma década na academia de formação do IF Brommapojkarna, a melhor do país, antes de rumar ao AIK a troco de 90 mil euros em março de 2020.

Natural de Solna e com ascendência na Eritreia, era uma questão de tempo até que Paulos Abraham acabasse a jogar pelo AIK, com o clube dos arredores de Estocolmo a vendê-lo agora por dez vezes mais do que havia pago ao Bromma. Um talento precoce habituado a saltar etapas, tendo chegado aos Sub-21 suecos aos 18 anos e quando contava, ainda, apenas, três internacionalizações Sub-16 pela Suécia. E foi aos 18 anos que se assumiu como uma das estrelas mais brilhantes do AIK e um dos seus poucos pontos positivos em 2020.

Pelo clube de Solna, Abraham registou valores muito acima da média em dribles por jogo na Allsvenskan, bem como em passes para finalização, em média, por 90 minutos. Fosse o contexto favorável e o mais provável é que Abraham tivesse terminado a época com um impacto ainda maior, algo que eleva ainda mais a inteligência da contratação por parte do Groningen. Antecipar cenários, perceber a qualidade e o potencial do jogador, e contratá-lo antes da explosão definitiva.

Resultado? Em vez dos dez milhões pagos por Isak, por exemplo, o Groningen dispensou apenas dois. Um pechincha por um jogador que foi o oitavo com mais dribles concretizados na Allsvenskan, mas nem por isso um dos que teve maior média por 90 minutos, um bom indicador de capacidade de decisão e maturidade por parte de Abraham. O atacante sueco foi também um dos jogadores com maior taxa de acerto no remate e um dos que terminou a época com mais passes para finalização na competição, quer no total, quer em média por 90 minutos.

Os números de Paulos Abraham revelam um potencial extremo num patamar elevado, principalmente se atendermos ao facto de em matéria de remate e finalização, Abraham ter várias arestas por limar. Mesmo enquadrando uma boa percentagem dos seus remates com a baliza, marcou menos golos do que aqueles que seriam de esperar em matéria das oportunidades que teve à sua disposição. Abraham traz grande mobilidade, criatividade e irreverência à frente de ataque de uma equipa – é muito inteligente na ocupação e identificação de espaços -, mas é mais forte na construção do que na finalização, impressionando ainda pelo trabalho defensivo que faz sem bola, particularmente interessante para um jogador deste tipo de perfil.

Paulos Abraham pode até nem ser o novo Alexander Isak, mas num contexto tão complicado como o AIK em 2020, o jovem extremo de 18 anos conseguiu deixar a sua marca. Capaz de interpretar diferentes funções dentro da organização ofensiva, qualidade técnica apurada e um trabalho sem bola inesgotável, Abraham está a meio caminho de vincar uma posição no futebol mundial. Chega, agora, a um patamar que lhe permitirá perceber onde pode chegar e os sinais deixados na Allsvenskan de 2020 são, no mínimo, muito promissores.

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