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SUPERLIGA 2022/23

jul. 12, 2022 0 comments

Casa de jogadores de culto e berço de alguns dos mais talentosos jovens jogadores a atuar no futebol europeu, a liga dinamarquesa regressa para mais uma temporada de revelações e com o FC København à procura de revalidar o título. Em 2022/23 serão todos contra o campeão que parece surgir de forma clara num patamar acima dos demais. FC Midtjylland, Brøndby IF e AaB correm por fora e a expetativa é grande para o que poderá fazer o Silkeborg IF esta temporada depois da grande surpresa encetada em 2021/22, bem como irá reagir o AGF a uma das piores temporadas da sua história recente. O defeso foi de revolução em Aarhus. Lyngby BK e AC Horsens regressam à competição após passagem pela segunda divisão e terão tarefa complicada de forma a replicar o feito histórico de Silkeborg e Viborg FF na temporada passada: em campanha de regresso, os dois clubes recém promovidos terminaram a época em lugares europeus.

Doze clubes irão então disputar a competição em 2022/23, formato que se mantém desde a temporada 2020/21. Num quadro competitivo que procura fomentar a competitividade da primeira à última jornada, doze clubes defrontam-se entre si em vinte e duas jornadas (casa e fora) para definir os grupos que irão disputar o play-off. Os seis primeiros da fase regular avançam para o play-off de apuramento de campeão na qual serão disputadas mais dez rondas – novamente casa e fora – apurando-se assim o campeão. Os dois primeiros classificados têm acesso à Liga dos Campeões, enquanto o terceiro classificado fica apurado para a Liga Europa. O quarto classificado da fase de apuramento de campeão irá disputar o play-off europeu frente ao primeiro classificado da fase de despromoção.

Se os seis primeiros classificados da fase regular avançam para um play-off de apuramento de campeão, os restantes seis clubes defrontam-se entre si para definir os despromovidos, bem como o clube que ainda lutará pela Europa. Os dois últimos classificados ao fim das restantes dez rondas descem automaticamente à segunda divisão, enquanto o primeiro classificado (sétimo no geral) defrontará o quarto lugar da fase de campeão para um encontro de único de apuramento do representante dinamarquês na Conference League. Confuso, mas um formato que garante competitividade do início ao fim e permite que cada clube tenha sempre algo por que lutar e a verdade desportiva seja mantida ao longo de toda a temporada.

AS GRANDES FIGURAS DA COMPETIÇÃO


OS JOVENS A MANTER DEBAIXO DE OLHO


2022 

2023

FC KØBENHAVN

FC KØBENHAVN

O campeão em título entra na nova temporada como o principal favorito ao mesmo, e de forma destacada. Com um plantel absurdo para a realidade da região, o emblema da capital dinamarquesa não entra em 2022/23 apenas para ser campeão no seu país, mas também para deixar a sua marca na Europa. Com um misto impressionante de experiência e juventude, o FCK reúne alguns dos melhores jogadores a atuar na segunda linha do futebol europeu (Rasmus Falk, Denis Vavro, Kamil Grabara, Viktor Claesson, Lukas Lerager ou Pep Biel) formando uma base sólida que permite que alguns dos mais talentosos jovens jogadores nórdicos (Roony Bardghji, Ísak Jóhannesson, Hákon Haraldsson, Victor Kristiansen, Elias Jelert, William Boving ou mesmo Akinkunmi Amoo) tenham espaço para explodir confortavelmente instalados num contexto de grande competitividade.

Jess Thorup, vencedor da Taça da Dinamarca ao comando do Esbjerg e campeão dinamarquês como treinador do FC Midtjylland e FC Copenhaga, mantém-se ao comando dos Leões e viu o clube manter todas as suas principais peças. Este foi mesmo um verão tranquilo para os lados do Parken, com o clube a ter preparado a nova temporada ainda com a anterior em andamento quando fez chegar à capital nomes como Claesson (que, entretanto, assinou em definitivo com o clube) Amoo, Mukairu, Babacar ou Mamoudou Karamoko.

Por tudo isto, o FCK surge num patamar muito acima dos demais na corrida ao título dinamarquês, aquele que, confirmando-se, seria o quinto em oito anos e o décimo quinto na história do clube formado em 1992.

A FIGURA: RASMUS FALK

JOVENS A SEGUIR: ROONY BARDGHJI, ORRI ÓSKARSSON, ELIAS JELERT, HÁKON HARALDSSON, ÍSAK JÓHANNESSON, WILLIAM BOVING, VICTOR KRISTIANSEN, AKINKUNMI AMOO, MARKO STAMENIC, DANIEL HAARBO, VALDEMAR LUND JENSEN

FC MIDTJYLLAND

FC MIDTJYLLAND

Após falhar o título em 2021/22 por apenas três pontos talvez não fosse de esperar um verão tão calmo no conjunto de Herning. O afastamento de Rasmus Ankersen do clube poderá ter também ditado alguma necessidade de reorganização diretiva numa temporada que foi de verdadeira revolução nos Lobos e a verdade é que o grande negócio do FCM para a nova temporada (até ao momento, pelo menos) acabou por ser a contratação de Anders Dreyer a título definitivo. E, isso, não é coisa pouca. O jovem atacante dinamarquês revolucionou por completo a frente ofensiva do FCM após a sua chegada em janeiro, marcando ou assistindo em praticamente todos os encontros que realizou. Ao todo, foram oito golos e oito assistências em apenas 16 jogos no regresso ao clube.

Com uma frente de ataque composta por Dreyer, Chilufya e Isaksen, o FCM mostra capacidade para bater qualquer adversário, mas ao nível de profundidade do plantel e restantes opções principais, o clube de Herning está longe do poderio do Copenhaga e será preciso uma temporada perfeita (e outra muito má do FCK) para fazer o título festejar-se em tons de preto e vermelho. Ainda para mais, perante a iminente e, há muito anunciada, saída de Evander do clube. Chris Kouakou, que chegou do CS Sfaxien a custo zero, deverá ser o seu substituto com o FCM a reforçar o seu poderio em África após uma aposta falhada no mercado sul-americano nos tempos mais recentes (Marrony, Charles). Stefan Gartenmann, um dos melhores defensores da liga, é outro dos reforços do conjunto orientado por Bo Henriksen.

Com o mercado internacional ainda a aguardar o seu habitual efeito dominó, o FCM parece esperar a sua grande venda (Evander) para atacar o mercado com outra incisão. Edward Chilufya, recorde-se, chegou apenas em janeiro e poderá ser na ascensão à primeira equipa de nomes como Pablo Ortiz, Ousmane Diomandé, Valdemar Andreasen ou Juan Moreno que estarão os grandes reforços da equipa - além dos regressados por empréstimo Sory Kaba e Nicolas Madsen, bem como do lesionado Elías Ólafsson que vinha sendo a grande revelação na temporada passada.

Conseguir manter até ao fecho do mercado Raphael Onyedika (eleito o melhor jovem jogador em 2021/22) e Gustav Isaksen, aliado à previsível explosão de Edward Chilufya após período de adaptação será meio caminho andado para uma temporada de sucesso no FCM que, com o seu futebol vertiginoso, vertical e de transições rápidas, é quase sempre uma das equipas mais entusiasmantes da competição.

A FIGURA: ANDERS DREYER

JOVENS A SEGUIR: VALDEMAR ANDREASEN, OUSMANE DIOMANDE, VICTOR LIND, JUAN MORENO, NIKOLAS DYHR, RAPHAEL ONYEDIKA, GUSTAV ISAKSEN

SILKEBORG IF

SILKEBORG IF

Em 2021/22 o Silkeborg IF surpreendeu tudo e todos ao terminar a temporada no pódio da Superliga logo após o seu regresso à competição depois de uma passagem de uma época pela segunda divisão do país. A equipa orientada pelo antigo internacional Kent Nielsen encantou, não só pelos resultados, mas principalmente pelo seu estilo de jogo rendilhado e aveludado. Ver o Silkeborg jogar não era ver apenas um encontro de futebol. Foi uma experiência sensorial e artística, e tudo isto com um dos plantéis mais jovens da competição. Em 2021/22, Silkeborg foi casa de uma equipa de culto e de futebol de autor.

A qualidade de jogo imposta por Kent Nielsen (nos seus tempos um centralão à antiga) no clube dinamarquês permitiu ao SIF elevar o nível e potenciar jogadores surpreendendo, por isso, que nenhuma das peças chave que levaram ao sucesso na época passada tenha acabado por sair. O SIF foi mesmo uma das equipas que menos mexeu e isso abre excelentes perspetivas para as eliminatórias europeias onde o clube irá tentar chegar à fase de grupos da Liga Europa – irá disputar o play-off de qualificação. Consiga implementar desde cedo o seu belo futebol, o conjunto de Kent Nielsen pode muito bem surpreender o adversário que o sorteio ditar.

Com o segundo plantel mais jovem da competição, o SIF terminou a temporada passada com a maior média de posse de bola por jogo, com o maior número de passes feitos, com a melhor taxa de eficácia de passe e com o maior registo de passes efetuados em cada posse de bola e não foi preciso Pep Guardiola viajar até ao interior da Dinamarca. Só Viborg FF e FC Midtjylland terminaram a época com um registo de golos esperados superior e só FCK e FCM permitiram menos oportunidades de golo aos adversários.

Manter a consistência é o grande desafio de Kent Nielsen, mas a manutenção de nomes como Rasmus Carstensen, Mark Brink (fundamental na engrenagem de toda a máquina) e do trio ofensivo Vallys, Jorgensen e Helenius (um dos melhores em toda a segunda linha do futebol europeu; Helenius foi mesmo o melhor marcador da liga) abre grandes expetativas para o que aí vem. Irá o Silkeborg continuar a surpreender? Até onde pode chegar a equipa que ainda há dois anos estava na segunda divisão? Mais experientes e com vários meses de trabalho em cima, o Silkeborg até pode correr por fora na luta pelo título.

A FIGURA: MARK BRINK

JOVENS A SEGUIR: ALEXANDER LIND, PELLE MATTSON, RASMUS CARSTENSEN, OLIVER SONNE, ANDERS KLYNGE

BRØNDBY IF

BRØNDBY IF

Após o título conquistado em 2021, o BIF tem vivido em constante sobressalto e reorganização. As dificuldades financeiras que o clube passou obrigou-o a vendas constantes e o pós-título fez-se de ano zero, mais do que de cimentação do sucesso desportivo. A boa notícia para 2022/23 é que essa razia constante parece ter acalmado e o clube entra na nova temporada já com a base oleada e com os olhos postos no pódio da competição. A equipa orientada por Niels Frederiksen (que levou o clube ao título) não perdeu nenhuma das suas grandes figuras, mas perante o reforço adversário não será fácil melhorar o quarto lugar alcançado em 2021/22.

Ainda assim, as limitações no conjunto amarelo e azul são claras: faltam golos a esta equipa desde as saídas de Jesper Lindstrøm e Mikael Uhre, enquanto a grande figura, capitão e esteio defensivo, Andreas Maxsø, irá falhar parte da temporada devido a uma lesão relativamente grave no joelho. Ludwig Vraa-Jensen, uma das grandes figuras da Dinamarca no recente Europeu U17, pode aproveitar o espaço deixado em aberto por Maxsø, e mais uma vez o Brøndby olha para dentro na altura de reforçar o plantel. Algo natural num clube cuja academia é lendária e deu ao Mundo do futebol alguns dos melhores jogadores dinamarqueses de sempre. Com exceção de Marko Divkovic (que assinou a título definitivo após empréstimo), todas as novas caras do histórico emblema dinamarquês ascenderam da equipa Sub-19 – especial atenção a Bertram Kvist.

O BIF entra assim na nova temporada como uma das grandes incógnitas da competição, mas sempre confortável no papel de outsider e que tão bem aproveitou para chegar ao título em 2020/21. O conjunto orientado por Niels Frederiksen não tem a qualidade individual à disposição de FCK e FCM, por exemplo, mas nomes como Rosted, Greve, Radosevic e Hedlund, aliados a alguns dos mais talentosos jovens da competição como o são Mads Hermanssen (grande revelação em 2022 e atual principal herdeiro de Kasper Schmeichel), Anis Ben Slimane, Joe Bell, Henrik Heggheim, Andreas Bruus, Christian Cappis ou Mathias Kvistgaarden dão garantias de competitividade e possibilidade de, em dia sim, bater qualquer adversário especialmente em jogos caseiros empurrados pelo inigualável público do Brøndby Stadion.

A FIGURA: ANDREAS MAXSØ

JOVENS A SEGUIR: BERTRAM KVIST, NOAH NARTEY, LUDWIG VRAA-JENSEN, MATHIAS KVISTGAARDEN, YOUSEF SALECH, HENRIK HEGGHEIM, ANIS BEN SLIMANE

AAB

AaB

Com uma pré-temporada construída sobre a base de vários meses de trabalho sob a orientação de Lars Friis, o conjunto de Aalborg surge em 2022/23 como a grande candidata a surpreender. A perda de Jacob Rinne, para muitos o melhor guardião da Liga em termos qualitativos, é um rude golpe nas aspirações da equipa vermelha e branca, mas o recrutamento tem sido impressionante em outras áreas do campo. Josip Posavec chega como o seu substituto (e não é de descartar a aposta em Theo Sander), mas destacam-se especialmente as chegadas a Aalborg de nomes como Allan Sousa e Lars Kramer (dos melhores da liga nas suas posições), a promessa adiada de Andreas Poulsen ou o muito reputado internacional jovem alemão Kilian Ludewig.

O AaB já tinha uma das melhores equipas da competição com o plantel saudável (o que nem sempre tem sucedido quer com Pedro Ferreira, mas especialmente com Lucas Andersen) e acrescentou qualidade em praticamente todas as áreas do campo e em posições carenciadas do plantel às ordens de Friis. O clube do norte da Dinamarca, porém, entra na nova época com a necessidade de inverter a tendência negativa com que terminou 2021/22 tendo mesmo perdido o play-off de acesso à Europa nas grandes penalidades para o Viborg FF, sendo que a pré-temporada esteve longe de ser positiva.

Terminar com a espiral negativa em que a equipa se meteu é o grande desafio inicial de Lars Friis de modo a alavancar uma temporada que pode ser surpreendente. Seria preciso uma época muito abaixo do esperado por parte dos principais favoritos, mas a qualidade à disposição da equipa de Aalborg permite até, com alguma sorte à mistura, sonhar com a Liga dos Campeões e eventualmente com o título. Friis fez um trabalho excecional em Viborg e o AaB levou para o Norte jogadores de grande qualidade. Se conseguir manter a equipa saudável e longe de lesões, tem nas suas fileiras alguns dos melhores jogadores da competição, mas também alguns dos jovens mais talentosos do país como os irmãos Ross, Malthe Højholt ou Kasper Hogh. Lucas Andersen é um dos mais talentosos jogadores da sua geração, enquanto Louka Prip foi responsável por uns impressionantes 18 G+A na temporada passada, assumindo-se como forte candidato ao prémio de MVP da competição.

Fundamental para o sucesso da equipa de Friis será, também, a manutenção de Iver Fossum e numa temporada em que os principais candidatos se verão a braços com as competições europeias, a maior frescura física do AaB pode muito bem acabar por ser determinante aquando da fase decisiva da competição. Orientados por um técnico com provas dadas e com um dos melhores plantéis da Superliga, a expetativa é grande para aquilo que AaB possa vir a fazer em 2022/23.

A FIGURA: LOUKA PRIP

JOVENS A SEGUIR: THEO SANDER, OLIVER ROSS, MATHIAS ROSS, MALTHE HOJHOLT, ANOSIKE EMENTA, VLADIMIR PRIJOVIC, KASPER HOGH, GUSTAV DAHL

RANDERS FC

RANDERS FC

Dois sextos lugares consecutivos e a conquista da Taça da Dinamarca em 2020/21 fazem do Randers um dos clubes mais fortes e bem-sucedidos do país nos últimos anos, mas ao contrário do que sucedeu em temporadas anteriores, em 2022/23, a equipa orientada por Thomas Thomasberg já não é uma surpresa. O Randers cimentou o seu lugar entre os seis clubes mais fortes da Dinamarca e 2021/22 viu mesmo o clube a competir pela primeira vez numa fase de grupos europeia, acabando mesmo a fazer um pequeno brilharete. Após eliminar o Galatasaray no play-off, ultrapassou um grupo composto por AZ, Cluj e Jablonec antes de cair aos pés do Leicester City.

Fruto de um estilo de jogo agressivo, vertical e de pressão alta e intensa, aliado a um recrutamento inteligente e cerebral, o Randers estabeleceu-se como um dos adversários mais competitivos da liga. Mesmo em jogos em que acabou por perder, o conjunto de Thomasberg vendeu quase sempre cara a derrota. Só em duas ocasiões em toda a temporada perdeu por três golos de diferença tendo estado entre as cinco equipas que menos ocasiões de golo permitiu aos adversários. Além disso, também só quatro equipas criaram mais ocasiões de golo do que o Randers e, neste aspeto, nenhum outro clube, à exceção do Viborg, ficou tão aquém do real face ao esperado.

Longe de ser uma equipa defensiva e com sorte nos resultados, o Randers é um dos conjuntos mais entusiasmantes da competição. Pelo contrário, a equipa de Thomasberg procura pressionar agressivamente o adversário logo numa fase inicial da construção e com isso provocar graves desequilíbrios. As lesões de Marvin Egho e Alhaji Kamara limitaram em muito a produção ofensiva da equipa que chegou mesmo a liderar a competição nas primeiras semanas da mesma, mas este é um conjunto que tem em nomes como Lasse Berg Johnsen, Tosin Kehinde ou Simon Graves alguns dos bons valores da competição fora dos grandes clubes.

Com o plantel saudável e sem a (boa) distração da Europa, o Randers pode muito bem voltar a intrometer-se na luta pelos lugares europeus e que acabou por falhar na temporada passada. As perdas de Vito Hammershøj-Mistrati e de Simon Piesinger são difíceis de suplantar (enquanto Mikkel Kallesoe só deverá regressar de lesão após a passagem de ano), mas o regresso dos lesionados de longa duração aliados à fixação a título definitivo de Stephen Odey e contratação de Adam Andersson permitem a Thomasberg manter a competitividade, morando no Randers nomes como os irmãos Bundgaard, Tobias Klysner ou Mads Engaard, alguns dos jovens mais promissores a atuar no futebol dinamarquês – tendo perdido Alexander Simmelhack, máquina goleadora, em final de contrato. Coletivo, qualidade individual, experiência e juventude, o Randers tem de tudo um pouco e todos os ingredientes para se manter firme no topo do futebol do seu país.

A FIGURA: STEPHEN ODEY

JOVENS A SEGUIR: FILIP BUNDGAARD, MADS ENGAARD, TOBIAS KLYSNER, OLIVER BUNDGAARD, LASSE BERG JOHNSEN

VIBORG FF

2021/22 foi uma temporada especial para os clubes recém-promovidos à Superliga. Se o Silkeborg IF protagonizou um autêntico brilharete ao terminar a competição no pódio, também o Viborg FF garantiu o acesso à Europa depois de bater o AaB nas grandes penalidades no play-off de acesso à Conference League. A equipa de Viborg foi sempre um osso muito duro de roer e terminou mesmo a temporada numa sequência impressionante de apenas uma derrota nos últimos treze encontros da época e para a qual muito contribuíram alguns dos jovens mais entusiasmantes da competição: Justin Lonwijk, Tobias Bech ou Younes Bakiz.

Em todo a fase final da temporada, em todo o play-off, o VFF somou apenas uma derrota e, isto, numa época em que viu Lars Friis ser-lhe “roubado” pelo AaB a meio da mesma. Qual ironia do destino, o VFF avançou para a contratação de outro Friis, Jacob, nome com história precisamente em… Aalborg. Em 2021/22 o VFF acabou a sorrir com a qualificação para a Europa e tal não foi mais do que merecido. Numa temporada em que nem sempre os resultados acompanharam as exibições da equipa verde e branca, o VFF acabou por ver justiça ser feita já no play-off de qualificação europeia e com isso ganhar embalo e abrir expetativas para o que aí vem.

Determinante para o sucesso da equipa orientada por Lars e Jacob Friis foi Christian Sørensen que ganhou um novo fôlego na carreira desde que foi adaptado à lateral esquerda. Sørensen foi uma das figuras da temporada e o maior criador de oportunidades de golo da competição tendo mesmo terminado a época com o maior número de assistências registadas, nove, que dado o volume de oportunidades criadas até ficou aquém. Na verdade, o subrendimento andou sempre de mãos dadas com o VFF em 2021/22 e apesar de ter ficado pelo grupo de despromoção, grande parte dos registos estatísticos colocam a equipa verde e branca entre as cinco melhores da liga dinamarquesa na temporada passada.

Fruto de um grave problema com a finalização, o VFF não conseguiu sempre alcançar os resultados que as exibições possibilitavam. A equipa de Friis terminou a época com o quarto melhor registo de pontos esperados e foi a equipa que mais oportunidades de golo criou (muito por culpa das bolas paradas venenosas de Sørensen) tendo mesmo terminado a época com um défice de dez golos face ao esperado. A eficácia em ambos os lados do campo foi o calcanhar de Aquiles do VFF em 21/22 ao revelar grandes dificuldades em finalizar as oportunidades que facilmente criou, bem como grandes dificuldades em evitar conceder oportunidades de golo aos adversários.

Por tudo isto, o VFF foi uma das equipas mais espetaculares da competição na época passada e conseguir manter o volume ofensivo, melhorando a solidez defensiva, é o grande desafio de Jacob Friis para a nova temporada. Com a manutenção de grande parte dos seus principais jogadores, o VFF aposta na continuidade e a contratação de Zan Zaletel para cobrir a vaga deixada em aberto por Lars Kramer oferece garantias – ainda que muito difícil de colmatar. Além disso, o conjunto verde e branco levou para a Dinamarca o jovem espanhol Nils Mortimer que depois de boas indicações deixadas na Youth League e escalões inferiores de Espanha terá a sua primeira grande oportunidade na Superliga. Preocupante só mesmo a ausência de reforço na frente de ataque, mas com Marokhy Ndione já ambientado ao clube esse reforço pode muito bem-estar no homem contrato ao Elfsborg em janeiro passado.

A FIGURA: CHRISTIAN SØRENSEN

JOVENS A SEGUIR: SOFUS BERGER, LUCAS LUND, JUSTIN LONWIJK, TOBIAS BECH, IBRAHIM SAID, NILS MORTIMER, JAN ZAMBUREK, ZAN ZALATEL, MAROKHY NDIONE, DANIEL ANYEMBE, YOUNES BAKIZ

OB

Não foi por falta de poder de fogo e qualidade individual no seu setor ofensivo que o OB não foi além do nono lugar durante a fase regular em 2021/22, oitavo após o final do play-off de despromoção. Na verdade, poucas equipas da Superliga reúnem um grupo de jogadores tão perigoso e talentoso do meio-campo para a frente quanto a equipa orientada pelo sueco Andreas Alm. Se Mads Frøkjær-Jensen, Jakob Breum, Emmanuel Sabbi, Issam Jebali, Sander Svendsen, Bashkim Kadrii e Max Fenger já estavam no clube, a equipa de Odense juntou-lhes ainda Agon Mucolli e promoveu uma das figuras da liga U19 dinamarquesa à sua primeira equipa: Charlie Horneman.

A consistência foi claramente o problema do OB em 2021/22, mas esta foi também uma das equipas mais injustiçadas pelos resultados face às exibições. O conjunto de Odense foi uma das seis que mais oportunidades de golo criou, bem como uma das quatro que menos permitiu aos adversários. Curiosamente, o problema esteve mais no individual do que no coletivo. Sofreu mais golos do que o esperado e apesar de ter estado em linha no rácio golo marcado/esperado, também não mostrou capacidade para transformar meias oportunidades em golo como seria de esperar numa equipa cujo talento é claramente acima da média.

A margem potencial do OB é grande para 2022/23 e entra, por isso, como um dos conjuntos nos quais mais expetativas se depositam, mas também como uma das maiores incógnitas da competição. Com o talento à disposição de Alm, o conjunto de Odense pode bater qualquer adversário, mas a facilidade com que perde pontos em jogos mais acessíveis limita em muito os objetivos europeus do histórico emblema dinamarquês. Elevar o nível e colocar toda a equipa a jogar ao nível do seu potencial é o grande desafio do antigo avançado sueco.

Em 2021/22 o OB falhou o objetivo europeu, mas a temporada foi, ainda assim, positiva para o clube de onde saíram, por exemplo, Rasmus Falk e Christian Eriksen. Alm liderou o OB à final da Taça da Dinamarca – perdida para o Midtjylland apenas nas grandes penalidades – e a sensação deixada foi a de uma equipa que melhor à medida que a época avançou, mas que claudicou nos momentos chave. Sintomático disso mesmo é o facto do OB apenas ter perdido um jogo em todo o play-off tendo essa derrota ocorrido perante o despromovido Vejle BK na última ronda, jornada em que entrava ainda com o sétimo lugar em vista.

Ou seja, durante a recta final da temporada poucas equipas conquistaram tantos pontos quantos conquistou o OB permitindo por isso, a Alm, encarar a nova época com positivismo e certeza de que poderá muito bem-estar entre os seis primeiros da fase regular. Não só há talento para isso, como os jogos em cima das pernas de muitos dos jovens mais talentosos da liga em muito os beneficiarão. Em 2022/23, o OB entrará em campo com Bernat, Breum, Fenger, Frokjaer-Jensen, Joel King, Nicholas Mickelson e Mihajlo Ivancevic mais experientes e, isso, é um cenário “aterrador” para os adversários. É que, ainda por cima, também há Jebali, Sabbi, Kadrii, Svendsen, Tverskov ou Skjelvik, alguns dos melhores jogadores da liga nas suas posições e, a eles, o clube juntou a força da natureza Bjorn Paulsen, Agon Mugolli e Gustav Grubbe, além das promoções de Charly Horneman e Luca Kjerrumgard. Em 2022/23, até pode não correr bem, mas o OB é uma equipa a seguir com atenção. Obrigatoriamente.

A FIGURA: JEPPE TVERSKOV

JOVENS A SEGUIR: CHARLY HORNEMAN, JAKOB BREUM, LUCA KJERRUMGARD, GUSTAV GRUBBE, ROBIN ØSTRØM, MAX FENGER, HANS BERNAT, JOEL KING, MADS FRØKJÆR-JENSEN, NICHOLAS MICKELSON

FC NORDSJAELLAND

Com o décimo lugar alcançado no final da temporada regular em 2021/22 não era preciso jogar-se mais da época dinamarquesa para encontrar a grande deceção da competição. A equipa orientada por Fleming Pedersen chegou mesmo a flirtar com os lugares de despromoção, mas uma ponta final de melhor nível (ainda que quase sempre a resultar em empates) acabou por permitir ao FC Nordsjælland terminar a campanha passada na oitava posição. O que aí vem, não é fácil de prever.

Apenas uma derrota nos últimos dez encontros e uma sequência de nove encontros consecutivos sem perder a fechar a época (ainda que apenas três vitórias durante o play-off) permitem ao FCN encarar a nova época com algum otimismo, afinal, dado o potencial e qualidade à disposição de Pedersen, difícil mesmo é fazer pior. Este, porém, é um clube especial. Um dos mais especiais da Europa, para o bem, e para o mal. O seu posicionamento enquanto clube de futebol e instituição desportiva, quase social, fazem do FCN um emblema que extravasa as linhas do relvado. Para o FCN tudo isto não é apenas futebol, mas por vezes, o futebol também parece o último objetivo do clube de Farum.

Motivado por uma rotação quase obsessiva e um fascínio muito especial em colocar diferentes estímulos aos seus jovens jogadores, o FCN é muitas vezes uma equipa de formação a atuar numa primeira divisão europeia. Mais do que o sucesso desportivo, os títulos e as conquistas, os objetivos do FCN parecem passar, sim, pela formação de homens e atletas. Por isto, os Tigres talvez não devam ser avaliados da mesma forma que avaliamos outros clubes, mas quando o próprio treinador mostra ambição e aponta à Europa e a títulos, somos chamados à realidade, os pés assentam no chão, e a crítica é obrigatória.

Se o FCN quer ser um clube formador tem-no feito como talvez nenhum outro na Dinamarca e as vendas recentes estão aí para o provar. A qualidade com que jovens jogadores como Mikkel Damsgaard, Andras Skov Olsen ou Sulemana Kamaldeen, apenas para citar alguns exemplos, se impuseram nas grandes ligas estão aí para o provar. Mas esta também era uma equipa que tinha alguns dos mais promissores jovens jogadores nórdicos da atualidade e foi buscar, a meio da temporada, nomes experientes como Andreas Hansen ou Erik Marxen, bem como Mads Hansen ou Mads Bidstrup. Em termos de talento absoluto e potencial, poucos treinadores tinham tanta matéria-prima para trabalhar como Pedersen e, ainda assim, o clube não foi além da metade baixa da tabela.

Ao FCN falta cultura de exigência e ambição que não é fácil de adquirir sem base de apoio e sendo um clube quase artificial. O emblema de Farum tem, na verdade, os dados de jogo do seu lado e justifica-os com um plano que permite aos jogadores serem potenciados para um nível especial como poucos outros clubes o conseguem na Dinamarca. Se mesmo sem lutar por títulos; sem ser presença assídua na Europa o FCN consegue as vendas que consegue é difícil exigir muito mais. Que se perceba: aqui o sucesso não é medido em títulos. É medido em colocações, em formação e em vendas conseguidas. E, cada vez mais, a marca é de qualidade. Quem sai de Farum sai quase sempre muito bem preparado para o futebol de elite.

O verão de 2022 não foi, por isso, exceção. Simon Adingra rumou a Brighton por cerca de oito milhões de Euros – Andreas Schjelderup tem caminho aberto à explosão em 22/23 -, enquanto Magnus Kofod Andersen deixou o clube a custo zero rumo a Veneza. Maxwell Woledzi saiu para Guimarães e tanto Tochi Chukwuani como Andreas Bredahl deixaram também o clube em final de contrato. Como quase sempre acontece com o FCN o reforço vem de dentro e chega da academia Right to Dream que detém o clube. É por isso que se torna difícil prever o que aí vem e é, também, por isso, que é tão fascinante acompanhar o Nordsjælland: há sempre uma surpresa ao virar da esquina. Nem sempre corre bem como aconteceu em 2021/22, mas… e quando corre?

Com apenas quatro jogadores acima dos 23 anos no plantel, o FCN é uma autêntica equipa de formação, quase uma seleção nórdica U21, a jogar numa primeira liga europeia. O clube fez história recentemente ao apresentar os onzes iniciais com menor média de idade de todo o sempre no futebol dinamarquês e em estudos recentes do CIES ficou a saber-se que este é mesmo um dos plantéis mais jovens em toda a Europa do futebol. A juventude e a inocência do plantel são também aquilo que explica o insucesso desportivo do FCN em 2021/22, mas caso a experiência adquirida na temporada passada aumente a consistência do clube em 2022/23, então, podemos muito bem passar da deceção à surpresa em poucas semanas.

Os indicadores estão aí para quem se quiser precaver. O FCN ficou apenas aquém do Silkeborg em matéria de posse de bola e em quase todos os indicadores criativos, do passe à própria criação de oportunidades de golo, esteve entre as melhores da liga e só uma incapacidade crónica para transformar essas oportunidades em golo (fruto da ausência de um claro ponta-de-lança e goleador) limitou a chegada a outro patamar durante a temporada. O FCN, porém, não apresentou qualquer reforço para inverter essa tendência e, mais uma vez, é também por isso que se torna difícil prever o que possa ser a sua época. Corrigido o problema no eixo central da defesa conseguido em janeiro, o Nordsjælland tem quase tudo para melhorar em muito a prestação conseguida em 2021/22.

A FIGURA: JACOB STEEN CHRISTENSEN

JOVENS A SEGUIR: ANDREAS SCHJELDERUP, LASSO COULIBALY, ADAMO NAGALO, MADS HANSEN, DANIEL SVENSSON, OLIVER VILLADSEN, MOHAMED DIOMANDÉ, JACOB STEEN CHRISTENSEN, MADS BIDSTRUP, BENJAMIN NYGREN

AGF

Depois dos terceiros lugares alcançados de forma consecutiva em 2019/20 e 2020/21 – a jogar um futebol vibrante e espetacular -, pouco fazia prever a derrocada do AGF em 2021/22. Ou terá sido bem assim? Os sinais de que algo estava muito podre foram dados logo na pré-temporada com a queda da Conference League logo à primeira tentativa perante o modesto Larne FC da Irlanda do Norte. Era claro que a construção do plantel não tinha sido bem-sucedida e as importantes saídas de nomes como Kamil Grabara ou Kevin Diks não tinham sido decentemente acauteladas. Mas poucos, ainda assim, esperariam uma temporada tão má do emblema de Aarhus como veio a suceder e, por pouco, não terminou mesmo com o clube na segunda divisão dinamarquesa. No final, o AGF safou-se e a estrutura abalou. Em 2022/23, o clube da segunda maior cidade dinamarquesa regressa em modo revolução.

O AGF entra na nova temporada, por isso, a tentar jogar duas numa só. Enquanto a restante maioria dos clubes dinamarqueses construiu em cima de uma base vinda da temporada passada, o emblema de Aarhus teve de trabalhar a dobrar e fazer o que não fez no verão de 2021: construir uma equipa competitiva. David Nielsen, obreiro das surpresas em 2020 e 2021 deu lugar a Uwe Rösler e chegaram também ao clube nomes como Tobias Mølgaard (ex-Vejle), Mads Emil Madsen (ex-Slavia), Marco Olsson Valdés (ex-Brommapojkarna) e Sigurd Haugen (ex-Aalesunds).

Em teoria, o AGF foi uma das equipas que melhor se reforçou e melhor trabalhou o seu recrutamento, porém, a base vinda da temporada passada era fraca e não é certo que as chegadas, apesar de cirúrgicas e de qualidade (colmatou todos os principais problemas da equipa fora a baliza), sejam suficientes para recolocar o clube na metade superior da tabela e na luta por um lugar europeu. O AGF assinou com um técnico de provas dadas e reforçou-se bem, mas o atraso para a concorrência era significativo.

Sem a Europa a interferir na preparação para a nova temporada, os sinais deixados pela equipa de Uwe Rösler durante a pré-temporada foram relativamente positivos. Respira-se um ar mais positivo pelo Aarhus Park e o AGF virá para a 2022/23 num sistema e modelo bem diferente daquilo a que estávamos habituados, mas que casa claramente melhor com os jogadores à disposição do técnico alemão. Kahl e Mølgaard têm tudo para formar das melhores duplas de alas da competição (atacam melhor do que defendem e saem favorecidos neste modelo) e um trio de defesas centrais garante estabilidade, e protege perfis que não estão particularmente confortáveis a defender perante avançados mais rápidos e mais ágeis.

Além disso, uma dupla atacante formada por Patrick Mortensen e Sigurd Haugen é garantia de golos e ameaça constante, enquanto Mikael Anderson e Albert Gronbæk ganham liberdade para chegar à área adversária tendo Nicolai Poulsen nas suas costas. Com as saídas de Thorsteinsson e Bundu, e a tardia afirmação de Gift Links, o AGF perdeu capacidade de exploração dos flancos ofensivos e a passagem para um 3x5x2 cuja largura é garantida pelos alas torna a equipa mais equilibrada.

Em teoria, o AGF será muito melhor equipa em 2022/23 do que era em 2021/22, mas a limitação do plantel em termos da sua profundidade de opções poderá limitar o tecto da equipa de Aarhus. As bases, essas, estão lançadas. Desta vez, Stig Inge Bjørnebye puxou dos galões e montou um elenco competitivo, mesmo que curto. O sucesso, para o AGF, será mais a médio do que a curto prazo, mas fazer (bem) melhor do que em 21/22 já seria uma vitória. Na verdade, o difícil era fazer pior. Jack Wilshere? Não renovou e acabou mesmo a carreira. Só por isso, o AGF já é um clube de culto.

A FIGURA: MIKAEL ANDERSON

JOVENS A SEGUIR: MARCO OLSSON VALDÉS, ERIC KAHL, THOMAS KRISTENSEN, YANN BISSECK, ALBERT GRONBAEK

LYNGBY BK

No que a equipas recém-promovidas à Superliga diz respeito a fasquia ficou bem elevada para a nova temporada depois de tanto Silkeborg IF e Viborg FF não só terem alcançado a manutenção com facilidade, como ambas terminaram mesmo a época com a qualificação para a Europa. O feito dificilmente se repetirá em 2022/23, mas a verdade é que poucos imaginariam que tal pudesse ter sucedido na época passada. Cairá o relâmpago duas vezes na mesma árvore? Tanto Lyngby BK como AC Horsens mostram argumentos para surpreender, mas na Superliga desta temporada a concorrência é forte.

Se SønderjyskE e Vejle BK eram, à partida, em 2021/22, duas equipas que não ofereciam particulares garantias de sucesso, é difícil transpor cenário idêntico para a nova temporada. À exceção das duas equipas vindas da segunda divisão, todas as restantes apontam a objetivos mais altos do que apenas a manutenção na Superliga e têm efetivamente argumentos para o conseguir. Numa temporada que se prevê de grande competitividade, o fosso entre os repetentes na competição e aqueles que a ela chegam vindas da segunda divisão é particularmente grande e a tarefa não será fácil para Lyngby e Horsens.

Segundo classificado em 2021/22, o LBK regressa assim à Superliga após uma passagem de um ano pela segunda divisão do país. Os últimos anos dos Vikings têm sido passados em constante sobe e desce, mas não foi assim há tanto tempo que a equipa azul e branca surpreendeu tudo e todos ao fazer um Silkeborg e terminar em terceiro lugar vindo da segunda divisão, então sob o comando técnico de David Nielsen (2017). A Superliga tem sido pródiga neste tipo de situações recentemente e terá de ser sustentado numa sólida base defensiva que o LBK tentará sonhar com a manutenção.

A equipa de Freyr Alexandersson foi a melhor unidade defensiva da segunda liga na temporada passada e valeu-se de um largo sobre rendimento ofensivo, motivado por qualidade individual muito acima da média no seu setor atacante (Magnus Kaastrup e Frederik Gytkjaer à cabeça), para alcançar a promoção com cinco pontos de vantagem sobre o Hvidovre IF. A qualidade do processo defensivo da equipa de Alexandersson será chave numa hipotética manutenção já que do ponto de vista ofensivo as facilidades não serão, agora, as mesmas.

Chave para o sucesso da equipa dos arredores de Copenhaga será Adam Sørensen. O lateral esquerdo do LBK foi um dos grandes desequilibradores da competição na época passada e um dos seus principais criadores de oportunidades de golo tendo mesmo terminado a época com seis assistências assumindo-se como uma das opções de futuro para a posição no futebol dinamarquês. Sørensen mantém-se por Lyngby, tal como toda a equipa que levou o clube de volta para a Superliga e, essa, é a melhor notícia possível para Alexandersson.

Motivados por uma das mais vocais e leais bases de adeptos do futebol dinamarquês (o Lyngby teve a melhor média de assistência e a melhor taxa de ocupação da segunda divisão com cerca de 4500 adeptos regularmente nas bancadas do Lyngby Stadium) foi na segunda divisão que o clube encontrou reforço. Do Nykobing FC, grande surpresa da competição, chegaram Mathias Kristensen e Mikkel Juhl - dois elementos que facilmente teriam entrado na equipa ideal da divisão na época passada -, enquanto o veterano Andreas Bjelland assinou a título definitivo após empréstimo por parte do FC København.

Empurrados pelo apoio doméstico e alicerçados numa sólida fundação defensiva, aliada a qualidade individual no setor ofensivo, o Lyngby BK tem argumentos que permitem sonhar com a manutenção, mas a concorrência é tal na Superliga que a tarefa dos Vikings está longe de ser fácil. Se em 2021/22 havia, efetivamente, repetentes que se perspetivava poderem estar na luta pela manutenção tal não acontece em 2022/23. O problema não é quem vem, por isso. É quem já lá está.

A FIGURA: FREDERIK GYTKJAER

JOVENS A SEGUIR: MAGNUS KAASTRUP, CASPER WINTHER, ADAM SØRENSEN, MIKKEL JUHL

AC HORSENS

Campeão em 2021/22, o AC Horsens regressa também à Superliga após uma temporada de ausência e passagem pela segunda divisão do país, naquela que foi mesmo a primeira visita à divisão inferior desde 2015/16. Habituado a competir junto da elite do futebol dinamarquês nos últimos anos, a tarefa do AC Horsens em voltar a estabelecer-se como emblema primodivisionário não será fácil. Com o segundo melhor registo da divisão em matéria de pontos, golos e golos sofridos esperados, o emblema amarelo e preto alcançou a promoção, mas será isso suficiente para segurar o clube entre a elite?

Apesar da promoção, a temporada do ACH foi de menos a mais e em claro crescendo. Apesar de não ter passado do quarto lugar na fase regular da prova, uma ponta final de alto nível com oito vitórias nas últimas dez rondas e sem qualquer derrota pelo meio atirou o clube do centro da Dinamarca para o topo da sua divisão. Há, porém, motivos para acreditar que o choque de realidade não será tão grande em Horsens como em Lyngby. Se o LBK procurou sempre assumir o controlo do jogo e nele mandar, o ACH sente-se mais confortável sem bola, jogando na expetativa e atacando letal e cirurgicamente. Um estilo de jogo que encaixa melhor numa divisão onde o clube claramente não é favorito em qualquer confronto que dispute.

A permanência de jogadores como Casper Tengstedt e James Gomez, elementos claramente acima da média, até na Superliga, garantem manutenção de alguma qualidade individual na defesa e no ataque, com o emblema amarelo e preto a reforçar-se com a assinatura em definitivo de Moses Opondo (ex-OB) e de Samson Iyede (ex-Fredericia) bem como com o empréstimo de Marcus Hannesbø que chega de Aalborg. Porém, tal como acontece no LBK, apesar da base ser equilibrada, o nível adversário é tão alto que é difícil perspetivar a manutenção do Horsens na competição.

Na última presença do Horsens na Superliga o emblema amarelo e preto estabeleceu-se como um dos piores de sempre na história do futebol dinamarquês e, em particular, desde que o sistema de play-off foi implementado. A equipa do centro da Dinamarca esteve longe de ser competitiva, só conquistou a primeira vitória à décima jornada e em toda a temporada regular (2020/21) somou apenas dois triunfos em 22 rondas. O desafio da equipa orientada por Jens Berthel Askou é, mais do que qualquer outra coisa, oferecer aos seus adeptos uma imagem bem mais positiva do que aquela que estes recordam. E, mesmo isso, não será nada fácil.

A FIGURA: CASPER TENGSTEDT

JOVENS A SEGUIR: DAVID KRUSE, JAMES GOMEZ, MIKKEL LASSEN


PREVISÃO FINAL

1. FC KØBENHAVN
2. FC MIDTJYLLAND
3. AaB
4. SILKEBORG IF
5. BRØNDBY IF
6. RANDERS FC
7. OB
8. AGF
9. VIBORG FF
10. FC NORDSJÆLLAND
11. LYNGBY BK
12. AC HORSENS


ONZE CANDIDATOS A JOVEM DO ANO

ROONY BARDGHJI (FC KØBENHAVN)

O hype é bem real. Altamente valorizado pelos seus feitos e exibições no futebol de formação, Roony Bardghji surgiu na equipa do FCK aos 16 anos e assim que foi legalmente permitido que pudesse ser convocado. O impacto imediato do extremo sueco de raízes iraquianas foi tal que se tornou no mais jovem de sempre a ser utilizado e a marcar num jogo do campeonato dinamarquês. Naturalmente, o ímpeto inicial acabou por acalmar, mas ainda assim Bardghji nunca pareceu um estranho no Mundo do futebol de elite. A concorrência é fortíssima na frente de ataque do FCK, mas numa temporada tão cheia é certo que Bardghji terá as suas oportunidades. Com o talento que já apresentou, é impossível deixá-lo de fora na hipotética luta por jovem do ano. Considerado pelo portal Goal como um dos mais promissores do Mundo, Bardghji tem tudo para chegar a um nível muito, muito alto.

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ANDREAS SCHJELDERUP (FC NORDSJÆLLAND)

Apesar de ter sido uma das surpresas da competição em 2021, a temporada passada e que se previa de explosão para Andreas Schjelderup não correu como o esperado. Tal foi a qualidade mostrada pelo jovem norueguês na segunda metade da época 20/21 que rapidamente nos esquecemos que se tratava de um jovem de apenas 18 anos. Ainda assim, o ex-Glimt não deixou de apontar quatro golos na Superliga em 1428 minutos de utilização mesmo numa equipa cujo contexto coletivo esteve longe de o favorecer. Agora, com a saída de Simon Adingra do clube e a posição na extrema-esquerda do ataque em aberto, além de época e meia de experiência competitiva nas pernas, Andreas Schjelderup tem tudo para explodir e tornar-se na próxima grande venda da Superliga.

PERFIL COMPLETO


MATHIAS KVISTGAARDEN (BRØNDBY IF)

2021/22 foi uma temporada para recordar para Mathis Kvistgaarden. Com aparições muito pontuais na equipa principal do BIF em temporadas anteriores, o jovem avançado de 20 anos pegou de estaca durante a segunda metade da época passada. Participou em todos os encontros do histórico emblema de Copenhaga durante o play-off e contribuiu com quatro golos e uma assistência nos seus 654 minutos de utilização chegando mesmo à seleção U21 do seu país. Móvel, técnico e bom finalizador, Kvistgaarden tem tudo para ser a solução goleadora que o Brøndby havia perdido desde as saídas de Lindstrøm e Uhre.

GUSTAV ISAKSEN (FC MIDTJYLLAND)

Há muito nestas andanças, Gustav Isaksen entra agora numa temporada como uma das figuras da competição. O jovem extremo dinamarquês é um dos atacantes mais perigosos da Superliga e apesar de já ter chegado aos oito golos e cinco assistências em 2021/22, não é claro que esta tenha sido a sua temporada de explosão e, isso, é aterrador (no bom sentido, claro está). Consiga Isaksen encontrar-se com a consistência na finalização (tem tendência para o espetacular, mas alguma dificuldade em finalizações mais simples), então o jovem extremo de 21 anos poderá ser chave numa chegada do FCM ao título. Irreverente e letal a sair do corredor direito para o centro de forma a explorar o magnífico pé esquerdo que detém, não há muitos jogadores no Mundo tão bons na arte do Robbenismo.

JAKOB BREUM (OB)

Com apenas três presenças na equipa do OB até à temporada passada (e já da temporada 2019/20), Jakob Breum assumiu-se como uma das grandes revelações da época na Dinamarca em 2021/22. O jovem extremo de 18 anos, oriundo da histórica academia de Odense, foi presença em 24 jogos da equipa orientada por Andreas Alm e apontou quatro golos deixando água na boca para o que aí vem. Fortíssimo em condução e no drible, e dotado de uma qualidade técnica muito acima da média, Breum é também ele um extremo invertido, irreverente, muito forte a explorar o corredor central saindo da ala (esquerda) qual resposta azul e branca a Mikkel Damsgaard.

ANIS BEN SLIMANE (BRØNDBY IF)

Rei dos nutmegs, em termos de qualidade técnica poucos estão acima do tunisino em toda a competição. Depois de breves aparições em épocas anteriores, Ben Slimane pegou de estaca em 2021/22 e assumiu-se como um dos grandes criativos da competição. Já internacional pela equipa principal da Tunísia (esteve mesmo na última CAN), floresceu a jogar em terrenos mais adiantados e mais próximos da área adversária, ganhando despesas de criação na equipa de Niels Frederiksen. Fortíssimo no último passe e na condução de bola, com uma qualidade assinalável para sair da pressão e de zonas congestionadas, num perfil que lembra, por vezes, o antigo internacional belga Mousa Dembélé, Slimane é um jogador vibrante. Um mágico.

ALBERT GRØNBÆK (AGF)

O contexto coletivo em nada favoreceu Albert Grønbæk na temporada passada, mas a mudança de sistema em Aarhus aliado à chegada de um novo treinador tem tudo para permitir ao jovem médio a chegada a outro patamar. Versátil, pode fazer qualquer função do meio-campo ofensivo com fiabilidade, mas parece ser como #8 de chegada à área que Albert Gronbæk mais longe pode chegar. Fortíssimo a conduzir a bola em corridas verticais ou a atacar a área surgindo em zonas de finalização, Gronbæk enche o campo e mostra-se também fundamental em momentos de contra pressão. Fisicamente imponente, é forte nos duelos e tem o perfil perfeito para se assumir como um médio centro de qualidade em competições como a Bundesliga.

RAPHAEL ONYEDIKA (FC MIDTJYLLAND)

Eleito o melhor jovem jogador da temporada passada, numa liga onde a concorrência é forte e logo na primeira época como titular do FC Midtjylland diz tudo o que há para saber sobre Raphael Onyedika. Um monstro defensivo, varre o meio-campo e recupera bolas como poucos, tendo feito esquecer Frank Onyeka o que é, também, só por si, um feito assinalável. Se defensivamente o jovem médio nigeriano impressiona, a chegada a um patamar de excelência vai depender muito da sua evolução em matéria de capacidade ofensiva onde claramente não impressiona. Porém, se o objetivo passar por ter um tampão de meio campo para jogar à frente da defesa e que liberte os criativos, poucos o fazem de forma tão consistente quanto Onyedika que muito beneficiará da experiência adquirida de forma a temporizar melhor os seus duelos e a agressividade que lhes emprega.

HÁKON HARALDSSON (FC KØBENHAVN)

Lançado às feras em 2021/22, terminou a temporada em grande forma e somou quatro golos na liga - em pouco mais de 1 xG, sintomático de uma capacidade de finalização muito especial. Médio versátil, polivalente, tem uma relação brutal com o golo seja na criação, seja na definição, Haraldsson mostra capacidade para atuar em praticamente todas as posições do meio-campo ofensivo. Haraldsson já chegou até à seleção islandesa e como médio de chegada à área, oito ou segundo avançado, tem praticamente tudo para ser uma figura de destaque no futuro mais próximo do futebol europeu e ainda agora completou 19 anos. Começa mesmo a ser complicado desenhar o melhor FCK sem Haraldsson em campo.

JACOB STEEN CHRISTENSEN (FC NORDSJÆLLAND)

Com quatro temporadas na primeira equipa do FCN e mais de cem jogos disputados na Superligaen é um veterano nestas andanças e uma das figuras da competição apenas aos 21 anos de idade. Médio defensivo moderno, Jacob Steen Christensen alia capacidade defensiva a criatividade na construção e emana classe. Internacional jovem por todos os escalões da Dinamarca, a posição que ocupa não lhe garante o estatuto merecido e o contexto coletivo esteve longe de o favorecer em 2021/22, mas foi assim que cimentou a sua posição no onze de Pedersen que o FCN melhorou significativamente. Com a saída de Magnus Kofod Andersen para Itália, Christensen ascende assim a figura da equipa.

PERFIL COMPLETO


VICTOR KRISTIANSEN (FC KØBENHAVN)

Estava a ser uma das figuras da temporada até uma lesão o ter afastado da fase final da liga e bem que o FCK sofreu com isso, não só defensivamente, mas também ofensivamente. Futuro dono da lateral esquerda do seu país, é já um jogador bastante completo e claramente o mais promissor na posição em toda a Dinamarca. Sólido defensor e desequilibrador no ataque, Kristiansen já foi associado a clubes de grande dimensão e não tivesse sido a lesão que o afastou de grande parte da temporada e dificilmente tinha começado a época na Dinamarca. Afinal, em apenas 1797 minutos de utilização, Kristiansen rubricou quatro assistências o que diz bem da sua capacidade para se envolver no processo ofensivo e da qualidade no último passe que detém.

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DEN RØDE TRÅD  
A ORIGEM


Se os Países Baixos têm Rinus Michels, Barcelona tem Johan Cruyff e a Ucrânia tem Valery Lobanovski, a Dinamarca responde com Morten Olsen. Capitão nos tempos da Danish Dynamite e selecionador pelo maior período da história do futebol dinamarquês, Morten Olsen é uma figura central e universal no futebol daquele país. Jogador, treinador, pensador… Se há homem a quem a Dinamarca deve o sucesso atual é a Morten Olsen. Os quartos de final no Europeu de Sub-21 são dele, tal como o são as meias-finais alcançadas pela equipa nórdica no recente Europeu disputado um pouco por toda a Europa.

Se hoje a Dinamarca tem um processo, uma identidade e um projeto sustentado é a Morten Olsen que o deve. Selecionador entre 2000 e 2015, Olsen levou para a federação dinamarquesa muito do que aprendera em Amesterdão anos antes. A lenda do futebol esbarrou de frente com o Cruyffismo e nada mais foi igual. Sob o comando de Morten Olsen, a Dinamarca qualificou-se para o Mundial de 2002, bem como para o Europeu português em 2004, mas nem a ausência do Mundial 2006 retirou protagonismo a Morten Olsen, bem pelo contrário.

Foi durante a renovação de Morten Olsen em 2005, que prolongou o vínculo entre o antigo melhor jogador dinamarquês até ao final do Mundial 2010, mas que acabou por ser um pouco mais do que isso, que Olsen ganhou outro papel: além de selecionador, a Morten Olsen foi concedida a difícil missão de planear, projetar e idealizar todo o futuro do futebol dinamarquês. A missão de definir uma identidade para o futebol dinamarquês. Os resultados estão à vista. Olsen criou o “Den Røde Tråd”, “The Red Thread” ou o “Fio Vermelho” em bom português, um documento que define toda a identidade do futebol da Dinamarca, da base ao topo, e nada mais foi igual. Se, hoje, a Dinamarca tem um projeto bem definido e altamente sustentável que deixa o país próximo de vencer outro título internacional, o responsável máximo é Morten Olsen.

Com influência máxima no Barcelonismo projetado por Cruyff, Morten Olsen viajou ao seu próprio passado como jogador ao serviço da Danish Dynamite de Sepp Piontek para definir, em traços gerais, que o futebol dinamarquês se tinha de definir pela coragem, audácia, criatividade. O futebol dinamarquês tinha de ser bravo, explosivo, ofensivo. Criativo. Como o era, afinal, no seu tempo e que tantos encantou entre 1984 e 1986, particularmente. O caminho nem sempre foi seguido à risca, mas quando se percebeu que o contrário do que definira Olsen não resultava, a Dinamarca regressou à sua bíblia. No caso mais recente, Kasper Hjulmand foi o escolhido para suceder a Åge Hareide que, apesar dos grandes resultados que conseguiu, nunca encaixou estilisticamente no pretendido pela seleção dinamarquesa. Ali não basta ganhar muitas vezes. É preciso fazê-lo com estilo. A escolha de Albert Capellas para os Sub-21, não teve pinga de acaso, igualmente.

“O manifesto foi atualizado e sê-lo-á sempre o tempo todo. Não se trata de jogar em 4x3x3 o que é muitas vezes mal compreendido pela imprensa e pelo público. O ‘Fio Vermelho’ é sobre ser-se treinado individualmente num desporto coletivo. Não se trata da forma como a seleção principal joga futebol”, afirmou Morten Olsen à imprensa dinamarquesa em 2013. “O projeto é acerca de como obter da melhor forma algumas ferramentas que permitam aos jovens jogadores ao longo dos anos tornarem-se melhores de um ponto de vista técnico e tático. Isto é feito principalmente nos clubes para depois, sim, os trabalharmos à nossa maneira na seleção nacional”, acrescenta o visionário.

“O fantástico é que o projeto começou como o desenvolvimento de talentos da DBU e agora transformou-se em todo o desenvolvimento de talentos na Dinamarca”, comentou Olsen. Segundo este, uma equipa de futebol nos tempos que correm deve ter a capacidade de se adaptar perante as vicissitudes do próprio jogo, sempre com base num jogo de posse. “A equipa ideal, de topo, de elite, tem de saber de tudo sobre o jogo nos tempos que correm. Não basta ser uma equipa de transição, tem que saber ter uma boa posse de bola e tem que saber ter flexibilidade no seu jogo ofensivo”, defende Olsen. “É preciso ter três ou quatro atacantes em troca posicional constante e que ao mesmo tempo sejam o primeiro bloco defensivo de forma que a equipa esteja bem preparada e organizada quando perde a bola”.

Se na teoria as palavras de Morten Olsen fazem sentido em 2013, ainda mais o fazem em 2021. Qual profeta, o antigo selecionador dinamarquês parece ter definido naquela conferência o estilo de jogo que viria a ser jogado pela equipa de Kasper Hjulmand quase uma década depois. Uma equipa que se adaptou a cada contexto com excelência, corajosa, ofensiva, pressionante. Não é por acaso, naturalmente. Estava tudo pensado. Tudo definido. Tudo planeado e quando assim é, o sucesso fica mais próximo.

Nada é por acaso e não é aleatório que vinte anos após a contratação de Morten Olsen para selecionador dinamarquês o país viva um momento de ressurgimento futebolístico e ganho tantos adeptos ao longo das últimas semanas. Não é por acaso que praticamente duas décadas após o manifesto de Olsen ter sido posto em prática a Dinamarca esteja a formar alguns dos mais talentosos jogadores do futebol mundial e a sua liga doméstica seja uma das mais interessantes na segunda linha do futebol europeu. Morten Olsen cultivou as sementes do sucesso, os frutos estão apenas a ser recolhidos.

Jogador, capitão, selecionador. Pensador. O legado de Morten Olsen no futebol dinamarquês é imortal e tudo é muito diferente desde que este liderou a seleção do seu país. “Simplesmente não temos uma boa base na formação, não treinamos bem o suficiente aqui na Dinamarca e os problemas são fundos e atingem as camadas mais jovens. Os nossos jogadores não são rápidos o suficiente, quer física quer mentalmente, a qualidade técnica é baixo e falta-nos mobilidade. Somos bons o suficiente para jogar ao domingo com os amigos, mas tudo isto é manifestamente insuficiente se queremos estar no topo do futebol”, atirou exasperado em 2003.

Olsen não fez por menos. Criticou a Liga, criticou treinadores, criticou jogadores. Criticou toda a estrutura de formação existente no país e toda a filosofia por trás do desenvolvimento de talentos por parte da DBU. Mas Morten Olsen não se ficou pelas palavras. Atuou. Criou um manifesto que mudou para sempre o futebol dinamarquês e nomes como Keld Bordinggaard e… Kasper Hjulmand, ele mesmo, foram responsáveis pela revolução completa do futebol de formação no país. A DBU chamou-lhe o “conceito mais ambicioso da história do futebol infantil e de formação”. Bullseye.

De repente a Dinamarca passou a ter um plano e o pormenor foi tal que até os pais dos jovens jogadores passaram a ter um papel ativo, definido e uma responsabilidade junto à linha lateral. O Fio Vermelho nada tinha a ver com 4x3x3 ser o melhor sistema de jogo e dizia mais respeito às crianças do que propriamente ao futebol profissional. Um manifesto mais relacionado com o toque na bola, sobre capacidade técnica em todos os grupos etários, sobre o desenvolvimento do talento puramente futebolístico. Um manifesto que pretendia terminar com o culto da fisicalidade.

O Fio Vermelho era, e é, acima de tudo, um manifesto acerca dos rapazes e raparigas poderem vir a ter uma oportunidade no futebol. Extensivo e ambicioso, o projeto de Morten Olsen visava definir a identidade e a filosofia do futebol dinamarquês para o futuro e transversal a todos os grupos etários. Dos rapazes às raparigas. A verdade é que o perfil do jogador mudou. A cultura mudou. A Dinamarca mudou. E, hoje, a seleção é uma das mais entusiasmantes do futebol europeu. No masculino e no feminino.

No Mundo de Morten Olsen, a Dinamarca devia ser uma equipa que dominava os seus jogos, não importando quão forte fosse o oponente. A inspiração teve como base a Holanda de Michels e o Ajax de Cruyff e tal como estes, a Dinamarca devia ser capaz de aniquilar adversários com um futebol fluido, rápido e associativo. A ideia, bonita e idealística, nem sempre acabou seguida de forma dogmática, principalmente após a saída de Morten Olsen e Jim Stjerne Hansen da DBU, mas foi quando Jesper Moller e Flemming Berg a ela regressaram que a Dinamarca se acercou do sucesso.

Para Morten Olsen, o manifesto era simplesmente a sua forma de ver o futebol do país em que nascera e que o próprio ajudou a cimentar cultural e desportivamente. Uma forma de tornar sustentável e sistémica toda a estrutura do futebol dinamarquês de forma a tornar possível fazer do jogo atrativo e ofensivo uma possibilidade consistente e realista. Afinal, o próprio Morten Olsen sofreu na pele, enquanto selecionador, a falta de talento à sua disposição e como isso acabou por limitar a sua capacidade para jogar sob os seus princípios.

Para Olsen a Dinamarca não podia ser como os restantes países escandinavos. Via, pelos seus olhos, um país criativo que se devia refletir no próprio futebol, contrastando claramente com a imagem aborrecida dos noruegueses e dos suecos, obcecados pela organização, fisicalidade e futebol defensivo. Quase vinte anos depois, era quem estava certo e até os suecos e os noruegueses começam a mudar a sua cultura futebolística e o perfil do jogador formado nesses países é hoje bem diferente do que era habitual. Os “Brasileiros do Norte da Europa”, chegaram a chamar aos Dinamarqueses na sua altura. Havia que regressar ao passado.

Morten Olsen viu o futuro e foi taticamente inovador num país à procura da sua identidade futebolística. Olsen viu que o futuro estava em Barcelona e no seu futebol de passe e estava certo. Aquele futebol de posse, asfixiante, ofensivo e de clara inspiração holandesa era o sonho que tinha para o futebol dinamarquês e que nunca conseguiu concretizar por não ter as peças certas de forma a engrenar a máquina. Um sonho tornado realidade, mas numa latitude indesejada. Infelizmente, dentro de campo, a Dinamarca de Morten Olsen não foi boa o suficiente para deixar legado como deixou a Dinamarca na qual jogou, porém, Olsen está hoje bem presente sempre que a equipa de Kasper Hjulmand entra em campo. Hareide teve os resultados, mas também não convenceu. Não basta vencer, afinal. É preciso fazê-lo com estilo. O rastilho foi de novo aceso e a dinamite dinamarquesa está preparada para explodir.

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